A investigadora MARE|ARNET Maria José Costa deu recentemente uma entrevista ao Correio da Manhã sobre a sua relação de décadas com o estuário do Tejo, no ano em que se assinalam os 50 anos da Reserva Natural do Estuário do Tejo
No ano em que se assinalam os 50 anos da Reserva Natural do Estuário do Tejo (RNET), a investigadora MARE|ARNET Maria José Costa é uma das maiores vozes na defesa desta zona húmida, que conhece como a palma da mão.
Criada em 1976, a RNET é uma área protegida com mais de 14 mil hectares. Insere-se no estuário do Tejo, a maior zona húmida do país e uma das maiores da Europa Ocidental, com 320 quilómetros quadrados, entre a Grande Lisboa e a Península de Setúbal, onde o rio encontra o mar. É um verdadeiro santuário para aves, peixes, moluscos, crustáceos e espécies vegetais.

Galardoada com o Grande Prémio Ciência Viva em 2023, Maria José Costa construiu uma relação próxima com o estuário desde o final da década de 1970, quando desenvolveu a sua tese de doutoramento em biologia marinha, sobre a ecologia dos peixes no Tejo, na Universidade da Sorbonne, em Paris.
Recorda que, nessa altura, "o estuário do Tejo estava péssimo. Ninguém cuidava daquele espaço." Segundo a investigadora, a criação da reserva como área protegida foi determinante, com início nos projetos de proteção das aves e num maior envolvimento da comunidade científica. Seguiu-se a sensibilização para a questão dos peixes e o projeto da UNESCO, que consolidou o combate à poluição e a preservação da reserva.
Maria José Costa refere ainda que, entre 1976 e 1978, as melhorias se tornaram notórias com o desmantelamento das principais indústrias pesadas da margem sul, responsáveis pela poluição histórica do estuário. As novas regras nacionais e europeias para o ambiente, a criação das primeiras Estações de Tratamento de Águas Residuais e a crescente sensibilização ambiental da população portuguesa foram determinantes para o futuro da reserva.
"O estuário do Tejo é hoje um laboratório importantíssimo para o país e não só", afirma. Um dos trabalhos que a investigadora considera mais relevantes atualmente é um estudo sobre a presença de fármacos no Tejo, como antibióticos e barbitúricos, identificados no ecossistema e associados ao consumo de medicamentos, uma questão também de saúde pública. Entre as ameaças que mais a preocupam estão a pesca clandestina e, atualmente com maior gravidade, a presença de navios de cruzeiro: "A presença destas embarcações é muito negativa: obriga a fazer drenagens no estuário, o que tem muito impacto e está a poluir as águas."
No livro "O Estuário do Tejo: Onde o Rio Encontra o Mar", a investigadora descreve o potencial do estuário como um verdadeiro berçário de peixes, devido às suas características protetoras contra predadores, à temperatura mais elevada que potencia um maior crescimento e à abundância de alimento disponível. Questionada sobre o impacto das alterações climáticas, é direta: "A temperatura da água aumentou dois graus, só isto muda tudo." O desaparecimento da patruça, do linguado, da faneca e do ruivo é uma das consequências, ainda que tenham surgido a corvina e o xarroco. "As comunidades vão mudando, por vezes de forma surpreendente. É por isso que afirmo que o estuário do Tejo é muito dinâmico."
Para Maria José Costa, o estuário do Tejo é a sua segunda casa. A investigadora dedicou-se ao estudo da ecologia dos peixes, da pesca e da biodiversidade marinha, é professora catedrática aposentada da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e investigadora do MARE|ARNET.
O MARE tem o prazer de convidar toda a comunidade para o Fórum da Biodiversidade do Tejo, no âmbito das celebrações dos 50 anos da Reserva Natural do Estuário do Tejo (RNET), amanhã, no Fórum Cultural de Alcochete.
Texto por: Patrícia Chaves
Fotografias: Paulo Valdivieso & Green Efact