A investigadora MARE|ARNET Catarina Frazão Santos deu recentemente uma entrevista no podcast "Ciência Polar à Portuguesa", da Association of Polar Early Career Scientists Portugal, onde revelou o momento em que as regiões polares entraram no seu percurso científico e o que a entusiasmou a estudá-las.

Foi já depois do doutoramento, a trabalhar no Laboratório Marítimo da Guia com foco em alterações climáticas e ordenamento do espaço marinho, que Catarina se apercebeu de que as regiões polares tinham um menor número de planos de ordenamento e eram menos investigadas neste tópico, nomeadamente a Antártida. Do projeto OCEANPLAN - Marine Spatial Planning under a Changing Climate, surge o MSPOLAR: Marine Spatial Planning in Polar Regions, projeto que serviu de inspiração para o PLAnT - Planning for Sustainable Use of the Ocean in Antarctica, financiado pelo European Research Council (ERC), com início em 2024. Aqui, a investigadora tem estado a explorar os benefícios e os desafios de desenvolver um ordenamento inteligente do espaço marítimo (OEM) do ponto de vista climático na Antártida e no Oceano Austral.
O percurso internacional de Catarina Frazão Santos arrancou com um estágio de curta duração, através de uma parceria entre a FLAD e o MARE, que a levou à National Oceanic & Atmospheric Administration (NOAA). Trabalhou junto da entidade que desenvolvia mapas de sensibilidade para a NOAA, acompanhando posteriormente a sua operacionalização, e ainda teve a oportunidade de visitar a US Coast Guard de Nova Iorque para observar como a entidade respondia a situações de derramamentos de petróleo. A investigadora considera que "foi um momento que marcou o início de uma rede internacional", com as relações profissionais que construiu. Considera ainda que estas experiências são mais-valias, não só pelo desafio de sair da zona de conforto, mas também pelo impacto que podem ter na escolha de temas de investigação. "Mudou completamente o que ia fazer no mestrado", refere a investigadora.
Apesar da pressão que muitas vezes existe para ingressar num doutoramento imediatamente após o mestrado, Catarina trabalhou como bolseira de investigação no grupo do professor e investigador MARE|ARNET Francisco Andrade, responsável por trabalhos de monitorização ambiental em Troia e estudos de impacto ambiental. Esta foi uma fase muito dinâmica, com uma equipa interdisciplinar que abrangia desde a geodinâmica costeira até à macrofauna, e resultou num período de aquisição de muita experiência prática. Nesta fase, com o aumento do burburinho em torno do ordenamento do espaço marinho, Catarina detetou um potencial paralelismo entre o tema e a avaliação de sensibilidade ambiental que tinha estudado no mestrado.
Uma nova experiência internacional, com o curso de verão "Conservation Biology and Policy" na Universidade de Duke (EUA), contribuiu para a construção do seu doutoramento, com a ideia de explorar o ordenamento do espaço marinho associado às políticas do mar. Nesta nova fase, foi orientada pelo investigador Francisco Andrade, biólogo, e pelo investigador Michael K. Orbach, antropólogo, beneficiando, segundo a mesma, “da integração de perspetivas muito diferentes”.
A investigadora esteve presente nas reuniões do Tratado da Antártida, integrada na delegação portuguesa, uma experiência que considera ter sido essencial para perceber a diferença entre fazer ciência e o impacto que esta pode ter no contexto geopolítico, complementando a análise que já tinha feito da sua experiência em realidades distintas em Portugal, Cabo Verde e Moçambique.
Catarina Frazão Santos e a sua equipa partirão para a primeira missão no próximo ano. Apesar de "90% do trabalho não requerer viagem à Antártida", a investigadora considera que "há coisas que só se percebem quando se sentem". No entanto, refere que, mesmo que não pudesse visitar as áreas, continuaria a estudá-las.
Para Catarina, é importante um equilíbrio entre a vida pessoal e profissional: "Nós somos pessoas mais completas se tivermos vida pessoal, o que também se traduz numa ciência diferente." Acredita que hoje há mais consciência sobre saúde mental e bem-estar, referindo que nos tempos livres gosta de ler policiais e fazer caminhadas porque "soltam o pensamento", e que está feliz por ter voltado a fazer equitação, uma paixão que começou na adolescência.
Quando questionada sobre que conselhos teria para jovens cientistas que desejam trabalhar no contexto polar, a investigadora acredita que o mais importante é fazer o que entusiasma e traz brilho interior, mesmo que as probabilidades de sucesso pareçam baixas; é importante "não desistir e não levar a peito as falhas e os insucessos."
Texto: Patrícia Chaves