MARE defende parcerias estratégicas na proteção dos peixes nativos

A investigadora do MARE|ARNET, Carla Sousa Santos, e Sara Duarte, diretora de Comunicação e Desenvolvimento da Águas do Tejo Atlântico, S.A., assinaram recentemente um artigo publicado pela Associação Portuguesa de Distribuição e Drenagem de Águas sobre os desafios futuros dos peixes de água doce nativos em Portugal e a importância das parcerias estratégicas para a sua conservação.

As autoras relembram que a Diretiva-Quadro da Água previa, como meta para 2015, o bom estado ecológico e químico de todas as massas de água. Atualmente, apenas 47% das massas de água atingiram essa meta, sendo as populações piscícolas as mais pressionadas. Defendem, por isso, a minimização do risco de extinção dos peixes nativos através da conservação dos habitats fluviais, do investimento na melhoria efetiva da qualidade da água, da plantação de espécies vegetais autóctones para o restauro das galerias ripícolas e do restabelecimento da conectividade fluvial que permita a livre circulação dos peixes.

Em simultâneo, consideram importante o repovoamento de populações geneticamente e demograficamente depauperadas, dando como exemplo o “Projeto de Conservação Ex-situ de organismos fluviais”, que juntou o ISPA|MARE, o Aquário Vasco da Gama e a Quercus, em 2006, sob supervisão do ICNF, permitindo capturar peixes nos rios que se pretendia valorizar para posterior repovoamento. Segundo as autoras, estes esforços só fazem sentido articulados com um terceiro eixo: a promoção da literacia ambiental.

O Projeto Peixes Nativos, coordenado por Carla Sousa Santos, assenta em dois pilares: a investigação científica sobre as populações de peixes nativos e os ecossistemas fluviais que habitam, e a divulgação junto do público escolar, através de atividades práticas de literacia e de adoção de boas práticas para a preservação destes ecossistemas.

Em Portugal existem cerca de cinquenta espécies de peixes nativas nos rios, das quais 13 são endémicas do país e 19 da Península Ibérica. Segundo as autoras, várias destas espécies estão atualmente em risco de extinção devido à poluição das águas, à destruição das galerias ripícolas, à linearização e artificialização dos cursos de água, à proliferação de espécies exóticas e invasoras, à construção de barragens e à escassez de água resultante da captação excessiva, da regulação de caudais e das alterações climáticas. Apesar de as ETAR terem promovido melhorias na qualidade da água, "o trabalho de despoluição de rios e ribeiros é, no entanto, um desafio de continuidade", referem as autoras.

Segundo Carla Sousa Santos e Sara Duarte, o Projeto Peixes Nativos e a Águas do Tejo Atlântico SA têm objetivos complementares: por um lado, a proteção da ictiofauna de água doce nativa da região Oeste; por outro, a gestão do sistema de saneamento de águas da Grande Lisboa e Oeste, com garantia de proteção e melhoria da qualidade dos rios e ribeiros da região. Esta parceria, iniciada em 2017, teve dois grandes objetivos: estabelecer uma rede de monitorização científica da ictiofauna nativa e dos seus habitats no período mais crítico de seca estival, e sensibilizar a comunidade escolar para a preservação destes ecossistemas através de um programa de educação ambiental para alunos do 4.º ano do ensino básico.

Segundo Carla Sousa Santos, a missão pedagógica possibilitou aos alunos participarem nas fases comuns a um projeto científico: momentos em sala de aula para conhecerem os detalhes do projeto e a ciência que o sustentava, seguidos do acompanhamento do trabalho de campo de biólogos num rio próximo da escola e, por fim, o papel de "guardiões do rio", no qual ficaram responsáveis pela análise dos dados de campo e pela apresentação do projeto às restantes turmas da escola, às famílias e à comunidade local.

Ao longo dos seus seis anos de duração, o projeto monitorizou eficazmente 13 rios e dinamizou mais de uma centena de ações de sensibilização e atividades de educação ambiental, envolvendo 1552 alunos do ensino básico de oito municípios aderentes. Recebeu avaliações excelentes e o conceito foi exportado para outros países, como no caso da investigadora Sónia Buck, da Universidade Federal de São Carlos, no Brasil. O projeto recebeu ainda duas menções honrosas: no âmbito do Prémio Guarda-Rios (Boas Práticas), atribuído pela GEOTA, e do Prémio Reconhecimento de Práticas de Responsabilidade Social e Sustentabilidade, atribuído pela APEE (Associação Portuguesa de Ética Empresarial).

Entre os principais outputs do projeto destacam-se a exposição itinerante "Ictiofauna Nativa da Região Oeste", que continua a desempenhar um papel relevante na promoção da literacia ambiental, com o apoio do Fundo Ambiental, bem como o livro infantojuvenil ilustrado "Os Meninos do Rio" e diversos suportes pedagógicos desenvolvidos no âmbito do projeto.

Carla Sousa Santos partilha que, após 2023, o projeto deu continuidade às suas ações, sobretudo de capacitação, com o objetivo de reforçar a literacia ambiental e a sensibilização das populações ribeirinhas para a preservação dos ecossistemas aquáticos e da sua biodiversidade. Está atualmente a decorrer a primeira edição de um curso de monitores, que visa formar dinamizadores para as missões científicas do Projeto Peixes Nativos na região Oeste, uma iniciativa que comprova a importância da parceria estratégica entre a Águas do Tejo Atlântico e a academia.

As autoras reforçam, por fim, a importância de sinergias que permitam uma articulação vantajosa para a deteção, caracterização e resolução dos problemas que afetam os rios, a monitorização das espécies que neles habitam e a promoção do envolvimento e da união entre os ecossistemas aquáticos e as pessoas que deles usufruem.

 

Texto: Patrícia Chaves

Fotografias: Projeto Peixes Nativos