O investigador Pedro Proença Cunha (MARE|ARNET, Universidade de Coimbra) escreveu recentemente um artigo de opinião que alerta para as limitações dos instrumentos de planeamento do rio Mondego, com implicações diretas no risco de inundação em Coimbra.
Com base em 827 anos de registos hidrológicos, que permitiram caracterizar 232 eventos de cheia, o investigador defende que o caudal de referência para um evento com recorrência de 100 anos deveria ser atualizado para cerca de 4600 m³/s, podendo mesmo chegar aos 4900 m³/s se for considerado um período mais alargado, de 334 anos. Este valor está muito acima dos 4100 m³/s usados no Plano de Gestão de Risco de Inundação (PGRI, 2023), uma estimativa que Pedro Proença Cunha considera estatisticamente desadequada e assente num período historicamente mais seco.

O investigador recorda que o próprio Aproveitamento Hidráulico do Mondego (AHM) partiu de uma premissa semelhante, ao assumir um caudal 1,2 vezes inferior ao estimado com base em dados de 1915 a 1960, confiando excessivamente na capacidade de amortecimento das barragens. As ruturas nos diques registadas em 2001, 2016, 2019 e 2026 seriam, segundo o investigador, uma consequência previsível: a obra do Baixo Mondego foi concebida para um extremo de ~2000 m³/s, mas o rio já atingiu caudais próximos dos 5000 m³/s, ultrapassando aquele limite quatro vezes nos últimos 25 anos.
Pedro Proença Cunha aponta ainda como erro a adoção da cheia de 2001 como "máxima cheia conhecida" nos instrumentos municipais, um valor que ficou muito aquém de um evento centenário e que, segundo o investigador, abriu caminho ao licenciamento de edificações nas zonas inundáveis. Após as cheias deste ano, que motivaram o planeamento da retirada de 9000 pessoas das áreas baixas de Coimbra, a Câmara Municipal de Coimbra suspendeu o Plano Diretor Municipal e obteve autorização para construir em áreas até então protegidas pela Reserva Ecológica Nacional.
O investigador, que integrou um relatório técnico entregue à ministra do Ambiente e da Energia, considera urgente rever as Cartas de Zonas Inundáveis, o PGRI e os PDMs dos municípios ribeirinhos, estimando que, em 2060, há 50% de probabilidade de novo evento extremo capaz de provocar a inundação das baixas de Coimbra e o colapso do Aproveitamento Hidráulico do Baixo Mondego. O risco de inundação aumenta se um evento La Niña forte coincidir com uma fase negativa da Oscilação Norte-Atlântica, a combinação que, historicamente, produziu as maiores cheias do Mondego.
Para o investigador, "temos 30 a 40 anos para nos prepararmos", cabendo aos decisores políticos escolher entre a prudência da prevenção ou a continuação da construção em zonas de risco.
Texto: Patrícia Chaves
Fotografias: Paulo Cunha (LUSA)