2.º Encontro ARNET: aproximar a ciência da decisão foi o desafio central em Faro

"Dos rios ao oceano: ciência para um território em mudança" foi o mote que reuniu, nos dias 6 e 7 de julho, mais de 100 investigadores e outros atores na Universidade do Algarve, em Faro, para o 2.º Encontro ARNET. Ao longo de dois dias, uma ideia foi transversal: a de que o conhecimento produzido pelo MARE, pelo CIMA e pelo CBMA cumpre verdadeiramente o seu propósito quando chega a quem decide sobre o território, sejam autarquias, agências públicas ou organizações da sociedade civil.

 

Ciência ao serviço do território

O tom ficou dado logo na abertura, e não podia ter sido mais direto. André Pacheco, vice-diretor do ARNET e diretor do CIMA, instituição anfitriã, abriu o encontro a nomear as urgências que o país enfrenta hoje: "o tema que nos reúne não poderia ser mais atual, as alterações climáticas, a escassez hídrica, a perda da biodiversidade, os eventos extremos e a transição para uma economia azul sustentável são desafios que exigem respostas cada vez mais integradas." Foi esse desafio que Pedro Raposo de Almeida, diretor do ARNET e do MARE, veio traduzir numa frase: "a ciência deve ser o motor da decisão, e não apenas um repositório de conhecimento." Cláudia Pascoal, vice-diretora do ARNET e diretora do CBMA, sublinhou a escala que a rede já atinge, com investigadores espalhados por todo o país, do Minho ao Algarve."

A Universidade do Algarve, pela voz da vice-reitora Patrícia Pinto, trouxe o mesmo desafio, mas fora da rede: "precisamos de mais pontes para o conhecimento, pontes entre os investigadores e os próprios decisores, pontes entre a nossa universidade e a sociedade.", ideia reforçada por Cristiano Cabrita, vice-presidente da CCDR Algarve, que assumiu a dificuldade da “política pública nem sempre conseguir incorporar bem o conhecimento científico, seja por distância, seja por falta de conhecimento de quem decide."

 

Da investigação à decisão

A ligação entre a investigação e a decisão foi discutida ao longo do encontro, com contributos de participantes de várias organizações. Catarina Grilo, da WWF Portugal, deu uma perspetiva de fora da academia: lembrou que a ciência "é um dos contributos, mas não é o único" nas decisões políticas, onde fatores como a aceitação social das soluções assumem particular importância, e destacou o papel das ONGs na construção dessa ponte entre a investigação e os decisores com uma agilidade que os primeiros nem sempre têm.

Do lado da administração pública, essa mesma vontade de aproximação ficou evidente, com Inês Alves, da Agência Portuguesa do Ambiente, a resumi-la numa frase direta: "perante uma realidade cada vez mais complexa, a decisão tem de assentar em conhecimento sólido e atualizado. A decisão depende de conhecimento." Miguel Miranda (AIR Centre) e Gonçalo Duarte Gomes (ICNF) trouxeram os desafios de equilibrar economia azul e conservação e a importância de recuperar o envolvimento direto das comunidades locais na gestão do território.

Valentina Calixto, da Câmara Municipal de Faro, defendeu que o envolvimento direto das populações continua a fazer diferença nas decisões sobre o território, dando como exemplo o processo de participação pública da autoestrada A22 que resultou em muitas alterações para acomodar os interesses da população. Teresa Cruz (MARE) deu o exemplo mais completo desta ponte entre ciência, decisão e sociedade, ao apresentar a história do primeiro comité de cogestão de uma pescaria em Portugal: o do percebe, criado em 2021 na Reserva Natural das Berlengas, a partir de "muitos anos de interações entre cientistas e mariscadores."

 

Comunicação, serviços e dados: as ferramentas da rede

O encontro dedicou também espaço às ferramentas que sustentam o trabalho em rede do ARNET. Vera Sequeira (MARE) apresentou o percurso do grupo da Comunicação, hoje mais visível do que há dois anos, e deixou um desafio para o futuro: dar um passo além das redes sociais, rumo a uma comunicação mais estratégica, capaz de traduzir de forma coerente o papel do ARNET na aproximação entre ciência, política e ação.

João Paulo Medeiros (MARE) apresentou a Plataforma de Serviços do ARNET, cujo objetivo é reunir num catálogo validado os serviços científicos que os centros da rede podem disponibilizar a entidades externas, desde as monitorizações ambientais até aos ensaios laboratoriais.

Já Joana Boavida-Portugal (MARE) apresentou o ARNET DataHub, criado em 2022 para reunir os dados científicos produzidos pelas várias unidades da rede. Este trabalho ganhou novo impulso em 2025 com a parceria firmada com o CoLab +Atlantic, através da criação de uma interface capaz de cruzar dados de modelos numéricos com medições recolhidas no terreno, por boias, estações e ferramentas genéticas.

 

Um programa alargado

O encontro incluiu ainda um vasto conjunto de outras apresentações, de que se destacam os riscos de erosão costeira e cheias em Faro e no rio Mondego, a intrusão salina no estuário do Guadiana, a gestão de áreas protegidas no Algarve, ferramentas moleculares e de baixo custo para a monitorização da biodiversidade, o potencial biotecnológico das macroalgas e os desafios da mineração no mar profundo e do ordenamento do espaço marinho face às alterações climáticas. Sobre a poluição por plásticos nos rios portugueses, Giorgio Pace (CBMA) deixou um repto: criar um observatório nacional dedicado a este tema, alargando às outras unidades da rede um trabalho que tem sido feito pelo CBMA.

O encontro terminou com uma nota de confiança no futuro da rede. André Pacheco lembrou que o sucesso destes dois dias não foi um acaso, mas o resultado de um objetivo comum: "Quando estamos a trabalhar todos juntos nesse objetivo, conseguimos criar aqui algo bastante especial, que mostra que o ARNET pode funcionar em rede." 

 

Texto: Vera Sequeira 

Fotos: Patrícia Chaves e Érica Silva