Formação Danube4all Encerra com Passeio de Barco no Estuário do Tejo

Da sala de aula às águas do Tejo: uma oficina de formação que não acabou em terra 

Em junho, a oficina de formação "Aprender com o território: explorar o estuário do Tejo na prática educativa" terminou com um passeio de barco pela Baía do Seixal, levando para a água os professores que, desde março, aprenderam a olhar o estuário com outros olhos. 

A iniciativa insere-se no projeto europeu Danube4all e resulta da parceria entre a Câmara Municipal do Seixal e o MARE | ARNET na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, através da infraestrutura de investigação CoastNet. Desta vez os professores não vieram sozinhos. Trouxeram as famílias, e o passeio tornou-se também um momento de partilha entre quem tinha passado os últimos meses a aprender sobre o estuário e a desenvolver projetos escolares sobre o território e quem, em casa, ia ouvindo falar deles.

A travessia fez-se a bordo do "Baía do Seixal", embarcação tradicional do Tejo construída em 1895 e que continua a navegar a mesma baía. José Lino Costa, Maria João Correia e Vera Sequeira, do MARE/ARNET FCUL, guiaram o grupo pelas águas onde o Tejo deixa de ser rio e ainda não é mar. José Lino Costa foi explicando, com a informalidade de quem já fez este percurso muitas vezes, por que razão um estuário como o do Tejo é uma exceção entre os estuários portugueses. 

"Estamos numa zona de transição biogeográfica", contou aos participantes, descrevendo a presença simultânea de espécies mediterrânicas, subtropicais atlânticas e temperadas atlânticas que se cruzam ali. "É por isso que estamos aqui numa zona que tem uma grande biodiversidade, às vezes muito superior àquela que nós esperaríamos encontrar a estas latitudes." 

Entre explicações sobre gradientes de salinidade e a importância dos invertebrados (amêijoas, lambujinhas, minhocas, entre outros) como indicadores biológicos, foi discutindo o impacto das cheias recentes na amêijoa-japonesa, espécie exótica invasora que, segundo José Lino Costa, morreu em grande número nas zonas menos profundas do estuário devido à entrada prolongada de água doce. Foi uma das muitas histórias que mostraram aos professores e às suas famílias como a ciência do estuário muda com as marés, as cheias e as estações. 

Houve também momentos mais leves, em que a ciência se misturou com histórias dos próprios participantes. Quando o tema chegou aos caranguejos, o pequeno Duarte contou ter visto um caranguejo-azul durante um passeio no Guadiana, em Vila Real de Santo António. José Lino Costa confirmou que sim, a espécie já anda por ali, e aproveitou para acrescentar que no estuário do Tejo também já se encontra outra espécie exótica, o caranguejo-peludo-chinês, que também está espalhado por todo o mundo, “pela Austrália, pela América, por todo o lado. É um viajante”, afirma.

A tarde seguiu um rumo diferente, mas com o mesmo destino. Enquanto a Câmara Municipal do Seixal promovia, no Jardim da Praça dos Mártires da Liberdade, mais uma edição do Seixal Green Market, dedicada ao tema "Pequenos Hábitos pelo Clima", o Danube4all e o CoastNet ocuparam uma banca própria, onde decorreu a atividade "MARE à beira-rio". Entre o ecomercado, o artesanato upcycle e os jogos tradicionais que enchiam o jardim, os investigadores Ana Brito, Bernardo Quintella, Paula Chainho e Susana França receberam famílias e outros visitantes com um conjunto de atividades pensadas para todas as idades: um jogo sobre consumo sustentável de pescado, observação de organismos do estuário e outros que servem de indicadores da qualidade da água e um jogo da glória dedicado às espécies de peixes migradoras (Projeto DiadSea). 

Entre o barco de manhã e a banca à tarde, o dia resumiu bem o espírito da oficina que ali se encerrava. “Aprender com o território" saltou as barreiras da educação formal, e o estuário do Tejo, com as suas marés e a sua biodiversidade, muitas vezes inesperada, continua a ser uma sala de aula a céu aberto. 

 

Texto e fotografias: Vera Sequeira e Maria João Correia