Novo estudo revela áreas-chave para a conservação de tubarões e raias nas Maldivas

Um novo estudo publicado na revista Frontiers in Marine Science revela que o estatuto de santuário não é suficiente para garantir que todas as áreas essenciais para tubarões e raias sejam identificadas e integradas em estratégias de conservação.

A investigação, liderada por Rui Rosa, professor em CIÊNCIAS Lisboa e investigador do MARE | ARNET, com a sua equipa, Margarida Vizeu-Pinheiro, Sebastião Farias e Maria Lourie, analisou sete anos de dados recolhidos no atol de Lhaviyani, nas Maldivas, um dos arquipélagos mais ricos em megafauna marinha do mundo.

Numa análise de mais de 12 700 mergulhos em 94 locais de amostragem, entre 2017 e 2024, a equipa registou cerca de 143 mil observações de tubarões e raias. 

No total, foram identificadas 25 espécies, das quais 23 constam da Lista Vermelha da IUCN como ameaçadas. Quatro encontram-se criticamente em perigo: o tubarão-martelo-gigante (Sphyrna mokarran), o peixe-guitarra-gigante (Rhynchobatus djiddensis), a raia-viola-de-espinhos (Rhina ancylostoma) e a raia-águia-ornamentada (Aetomylaeus vespertilio).

O estudo identificou quatro hotspots ao longo do bordo norte do atol, dois dos quais já estavam integrados nas Áreas Importantes para Tubarões e Raias (ISRAs), reconhecidas internacionalmente. Os outros dois ficam fora desses limites, apesar de registarem algumas das maiores ocorrências de espécies classificadas como Criticamente em Perigo de todo o estudo, o que levanta questões preocupantes sobre a adequação das fronteiras de proteção atuais.

Os investigadores verificaram ainda uma ligação clara com o ciclo das monções: a abundância e a diversidade de raias e tubarões atingem o pico no final da monção de sudoeste, entre agosto e setembro, quando as correntes favorecem a produtividade e a concentração de presas. Durante a transição para a monção do Nordeste, entre dezembro e março, os números diminuem.

Apesar de partilharem o mesmo oceano, tubarões e raias não ocupam os mesmos espaços. Os tubarões preferem zonas de maior complexidade geomorfológica, como vertentes de recife expostas e canais de corrente forte. Já as raias surgem com maior frequência nas lagoas e em zonas mais abrigadas, muitas vezes associadas a estações de limpeza, locais onde pequenos peixes removem parasitas de espécies maiores.

No caso dos tubarões, o oxigénio dissolvido e a clorofila são também fatores determinantes de abundância. Para as raias, é a temperatura, o oxigénio e a velocidade da corrente que mais condicionam a sua presença.

São peças-chave nos ecossistemas marinhos, exercendo controlo sobre as cadeias alimentares como predadores de topo. Mas o seu valor vai além da ecologia. Nas Maldivas, o turismo de observação de tubarões gerou 2,3 milhões de dólares num único ano, com o tubarão-de-recife-cinzento a valer até 35 000 dólares anuais nos locais de mergulho mais populares. Em 2010, o ecoturismo baseado em tubarões já representava 30% do PIB nacional, o que levou à proibição da pesca de tubarões nesse mesmo ano.

No entanto, em novembro de 2025, as Maldivas reverteram essa decisão, reabrindo a pesca ao tubarão-barroso (Centrophorus granulosus) após 15 anos de proteção. Face a este cenário, os investigadores defendem o alargamento das áreas marinhas protegidas, uma regulação mais eficaz da pesca, a integração dos hotspots no planeamento espacial marinho e a monitorização contínua destas populações através da ciência cidadã.

O investigador Rui Rosa deixa um aviso claro: "Mesmo os maiores santuários do mundo não estão imunes aos efeitos da atividade humana. Proteger tubarões e raias é proteger o futuro dos oceanos."