Será verdade que os peixes têm má memória? Nova exposição do MARE desfaz este e outros mitos

No Museu do Mar Rei D. Carlos, em Cascais, está patente a exposição "Inteligência dos Peixes: Complexidade comportamental num mundo subaquático". Resultado do trabalho de investigação que tem sido desenvolvido no Laboratório Marítimo da Guia, do MARE | ARNET, a mostra propõe um olhar diferente sobre os peixes e um mergulho nas suas mentes.

 

João Rocha, diretor do Museu do Mar, descreve a exposição como uma ponte entre a investigação científica e o público. "Esta exposição representa uma simbiose entre o município de Cascais e a Universidade de Lisboa na captação de conhecimentos e no acesso democrático à cultura e à ciência", afirma, recordando que Cascais é este ano a capital europeia da democracia. Deixa também uma palavra de agradecimento a Teresa Crespo, que impulsionou a vinda da exposição para o museu.

A curadoria é de José Ricardo Paula, investigador principal do Laboratório de Complexidade Comportamental do Laboratório Marítimo da Guia, do MARE | ARNET, e professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que descreve a exposição como um trabalho coletivo. A ilustradora Lia Neves é a autora das ilustrações, que percorrem os sete painéis. Lisandra Tavares, aluna de mestrado, foi responsável pelo desenvolvimento de conteúdos e pelos crochês que enriquecem a exposição. Raúl Oliveira assinou as impressões 3D de cérebros animais. Patrícia Pinto foi modelo no vídeo em exibição e ajudou a montar a exposição, e Luís Almeida apoiou nas descrições biológicas que serviram de base às ilustrações. Vasco Pissarra é o autor do documentário que encerra o percurso. 

Ao longo da exposição, painel a painel, as ideias que temos sobre os peixes são desmontadas. Começa-se pela definição do que é, afinal, um peixe, do ponto de vista evolutivo, antes de se avançar para os sentidos, "muito diferentes dos nossos", como lembram os próprios painéis, desde a eletroreceção dos tubarões até à linha lateral que funciona como um "tato à distância".

Em seguida, somos convidados a mergulhar na mente dos peixes: com cérebros impressos em 3D podemos comparar estruturas entre espécies tão diferentes como um peixe, um crocodilo ou um humano. Logo depois somos confrontados com um dos mitos mais conhecidos sobre os peixes, perpetuados por personagens como a Dory no filme “À procura de Nemo”. "Há um preconceito geral na sociedade de que os peixes têm uma memória de 3 segundos. Na verdade, não. Temos provas de peixes com memórias de mais de dois anos", afirma José Ricardo Paula, referindo uma experiência do próprio laboratório sobre autoconhecimento medido em peixes ao longo de um ano inteiro.

Da memória passamos à vida social. O curador da exposição explica as regras de cooperação nas estações de limpeza, onde pequenos peixes-limpadores negoceiam e, por vezes, agridem os seus peixes-clientes, e descreve um dos exemplos que mais o fascina: a caça cooperativa entre garoupas e moreias, em que cada espécie compensa as limitações da outra para apanhar presas escondidas nos recifes de coral.

Há ainda o teste do espelho, aplicado a peixes-limpadores que, quando confrontados com uma marca no queixo que identificam no espelho, tentam removê-la raspando-a numa pedra, um comportamento que se pensava reservado a alguns mamíferos e aves. "Isto quer dizer que eles conhecem as próprias características faciais, da mesma maneira que nós nos conhecemos a nós próprios", resume o investigador e professor.

O percurso termina num tom mais sério, com as alterações climáticas e a pressão humana sobre os oceanos a fragmentarem culturas inteiras de populações de peixes. José Ricardo Paula recorda o caso do arenque na Noruega, em que são sobretudo os indivíduos mais velhos e maiores que conhecem e transmitem aos mais jovens a localização dos locais de desova. A sobrepesca preferencial desses exemplares fez desaparecer esse conhecimento coletivo, e os bancos de arenque deixaram de seguir a costa norueguesa para se concentrarem no meio do Mar do Norte, transformando um problema biológico num problema de gestão política hoje partilhado entre vários países, incluindo a Islândia e a Escócia. "Podem apanhar os peixes grandes, mas os peixes grandes não conseguem transmitir cultura e comunidade social se já não estiverem lá para isso", alerta, sublinhando que o número de indivíduos numa população nem sempre reflete a saúde do seu conhecimento coletivo.

Jorge Marques da Silva, subdiretor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa com o pelouro do Ensino e Inovação Pedagógica, destaca como o tema da exposição se cruza com outras áreas da faculdade que talvez não sejam as mais óbvias. "Na disciplina de bioética discutimos as capacidades cognitivas de vários organismos, porque as teorias éticas de proteção animal têm a ver precisamente com essas capacidades, e isso entronca depois na legislação", nota, antecipando que a exposição deverá seguir para a Galeria de Ciências da Faculdade, onde espera atrair também estudantes de Psicologia e Medicina.

Bernardo Duarte, coordenador do MARE ULisboa, enquadra a mostra numa trajetória mais longa do centro de investigação em Cascais. "Esta já é a terceira exposição que os grupos do Laboratório Marítimo da Guia fazem aqui em Cascais", refere, recordando as anteriores dedicadas às alterações climáticas e aos corais, e sublinhando como esta presença regular tem reforçado a ligação entre o MARE e o município. Avança ainda que depois da passagem pela Faculdade de Ciências, a exposição poderá visitar outros polos do MARE, sem excluir uma futura versão digital.

Por detrás dos painéis está também um trabalho menos visível de ilustração e design. A ilustradora Lia Neves, que assina as ilustrações em aguarela espalhadas pela exposição, conta que o convite de José Ricardo Paula chegou numa altura em que procurava, um projeto sobre o mar. Escolheu a aguarela por ser, diz, "uma das técnicas mais desafiantes" e por se adequar a um tema fluido como o mar. Mas o maior desafio não foi técnico: "Tive de pensar na natureza como se fosse uma banda desenhada", explica, a propósito de cenas como a do peixe-limpador a acariciar o cliente para manter a cooperação. O trabalho conta ainda com ilustrações de Marta Herrero Castro, que desenhou espécies como o atum, o peixe-papagaio e o peixe-balão.

Beatriz Palinhos Pereira, investigadora responsável pelo design da exposição, admite que esta não era, à partida, a sua área. "A dificuldade foi ter um plano e segui-lo até ao fim", conta, descrevendo como o conceito visual evoluiu de painéis escuros com ilustrações a linha para a estética final, inspirada num caderno de laboratório, com letra manuscrita e setas desenhadas à mão, depois das ilustrações a cor de Lia Neves tornarem o fundo escuro desnecessário. Resume numa frase aquilo que gostaria que o público levasse da visita, "que os peixes são inteligentes e que se faz boa ciência em Portugal".

A exposição conta também com sons de peixes selecionados pelo Fish Bioacoustics Lab do MARE | ARNET na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, da autoria de Manuel Vieira, Clara Amorim e Paulo Fonseca, e tem o apoio da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), da Fundação "la Caixa" e da Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

 

 Informações úteis
 Exposição: Inteligência dos Peixes: Complexidade comportamental num mundo subaquático
 Patente ao público: até 14 de setembro de 2026
 Local: Museu do Mar Rei D. Carlos, Cascais
 

 Texto: Vera Sequeira
 Fotografias: Patrícia Chaves e Jéssica Jacinto