Investigadora do MARE analisa causas estruturais da crise da água em Almada e propõe rede mais resiliente

A investigadora Rita Maurício (MARE|ARNET), em entrevista à RTP, alertou para a necessidade de uma intervenção em Almada em três níveis: capacidade de captação, aumento da resiliência e uma rede de distribuição redundante.

Foi na primeira semana de julho que os Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Almada enviaram os primeiros alertas de contenção, seguidos de cortes no abastecimento de água nas 24 horas seguintes.

A investigadora Rita Maurício, professora do Departamento de Ciências e Engenharias do Ambiente da NOVA, explica que a situação de Almada resulta de problemas estruturais, uma vez que os níveis de captação e reposição dos reservatórios são insuficientes para fazer face às necessidades de consumo e às possíveis perdas na rede. Alerta que as falhas de água não são um problema exclusivo de Almada e que esta questão deve ser revista à escala nacional.

Para a investigadora, a solução deve ser desenvolvida a três níveis: serão necessárias medições piezométricas das captações existentes, para verificar inicialmente se há capacidade para fazer face aos consumos atuais. Poderão ser necessários mais furos, capacidade de captação e a construção de reservatórios que aumentem a resiliência do sistema. Num terceiro nível, será importante adoptar uma intervenção mais proativa, face à rede de distribuição para evitar perdas. Rita Maurício defende também que a rede de distribuição deverá ser malhada, criando redundâncias no sistema. Uma rede ramificada, como a que existe atualmente na região, impede a mudança do sentido de escoamento para cobrir zonas adjacentes afetadas, resultando em cortes prolongados.

A água em Almada tem origem subterrânea, proveniente do aquífero Tejo-Sado. Este aquífero é um dos maiores da Península Ibérica, uma reserva nacional estratégica. Rita Maurício afirma com toda a convicção que se devem priorizar os consumos e que as restrições em vigor devem manter-se. “O uso mais nobre da água é o abastecimento à população. (...) É uma questão de saúde pública e tudo o resto deve ser suspenso.”

É preciso recordar, alerta a investigadora, que os episódios de corte apresentam dificuldades a nível operacional, com momentos de despressurização e repressurização altamente exigentes para os equipamentos, condutas e quem os está a gerir. Estas ações deverão ser implementadas de forma cautelosa, uma vez que podem afetar a qualidade da água e resultar em novas ruturas: “Não se instalam reservatórios e tubagens de um dia para o outro."

Rita Maurício reforça que a gestão urbana da água deve ser atempada e não pode estar sujeita a limites administrativos. O planeamento, defende, deve ir além dos municípios. Afirma que a dada altura “Havia um plano de resiliência que contemplava "autoestradas da água" na área metropolitana de Lisboa, que consistia em passar tubagens pelas duas pontes sobre o Tejo”. Esta solução unia as duas margens e garantia abastecimento na direção necessária em caso de falhas de água.

Rita Maurício sugere ainda que se repensem as “divisões administrativas” que condicionam o acesso à água. “Lá por serem concelhos diferentes, não significa que a água seja de A ou B”, afirma, uma vez que os cidadãos têm os mesmos direitos e deveres no acesso à água.

 

Texto por: Patrícia Chaves

Fotografia: José Sena Goulão/LUSA