Investigadora do MARE integra expedição ao Ártico para estudar o destino do carbono

Catarina V. Guerreiro, investigadora do MARE|ARNET, é a única portuguesa a bordo do navio oceanográfico RV Odón de Buen. Até 3 de setembro, integra a expedição internacional do projeto IMAGE (Impact of Mesoscale Activity on Greenland Sea Biogeochemistry), que atravessa o Mar da Gronelândia para investigar como a dinâmica do oceano influencia o ciclo do carbono marinho.

A missão principal da expedição é compreender os mecanismos que controlam a bomba biológica de carbono no Mar da Gronelândia, mais concretamente, como a dinâmica do oceano influencia as comunidades de plâncton e, através delas, a captação de carbono nas águas superficiais e a sua subsequente transferência para o interior do oceano. Processos como as frentes oceânicas, vórtices e filamentos podem alterar a estratificação da água e a disponibilidade de luz e nutrientes para o fitoplâncton, com impactos na produtividade biológica e na quantidade de carbono que chega ao fundo. A bomba biológica, ao transferir carbono para as profundezas, contribui para a capacidade dos oceanos de armazenar carbono e, assim, regular as concentrações de CO2 na atmosfera e o clima. 

Perceber este mecanismo ganha particular urgência no Ártico. Como explica a investigadora, é “uma região que está a aquecer mais rapidamente do que a média global, com alterações rápidas na cobertura de gelo marinho, na estratificação e na circulação oceânica, suscetíveis de afetar tanto a produtividade biológica como a exportação de carbono.”

A bordo, Catarina V. Guerreiro dedica-se à bomba de carbonato, através da análise da produção e exportação de carbonato de cálcio (CaCO₃) por organismos marinhos calcificantes, sobretudo cocolitóforos, algas unicelulares revestidas por minúsculas placas calcárias. Estes organismos utilizam o carbono dissolvido na água do mar para produzir carapaças de carbonato de cálcio que revestem as suas células ou envolvem o próprio organismo. Após a sua morte, estas estruturas, ao afundarem, podem associar-se a agregados de matéria orgânica e favorecer o seu afundamento, influenciando a quantidade de carbono orgânico que chega ao oceano profundo.

Esta é a minha primeira expedição ao Ártico e representa uma oportunidade extraordinária para explorar, num contexto completamente diferente, questões que tenho vindo a investigar noutras regiões do oceano. Interessa-me particularmente perceber como o plâncton calcificante liga as bombas de carbono orgânico e de carbonato, e como esses processos à superfície influenciam o carbono que é exportado para o oceano profundo”, explica Catarina V. Guerreiro.

A investigadora sublinha ainda o valor da colaboração internacional que a expedição proporciona: "a participação na IMAGE representa também uma oportunidade para reforçar a colaboração internacional de Ciências ULisboa nas áreas da biogeoquímica marinha, ecologia do plâncton e ciclo do carbono, bem como para comparar os dados recolhidos no Ártico com observações realizadas noutras regiões do oceano, incluindo o Oceano Austral".

A bordo do Odón de Buen, Catarina V. Guerreiro integra uma equipa multidisciplinar de investigadores de Espanha, Alemanha, Dinamarca, França, Reino Unido e China, que estudam desde a circulação e turbulência do oceano até à física, química e biologia do plâncton. A expedição partiu de Reiquiavique, Islândia, a 2 de agosto, e tem chegada prevista a Svalbard, Noruega, a 3 de setembro. É liderada pelo IOCAG-ULPGC e co-liderada pelo IIM, envolvendo várias instituições internacionais, entre as quais Ciências ULisboa, através do MARE/ARNET e do Instituto Dom Luiz.

Todas as novidades sobre a expedição podem ser seguidas através do blogue oficial em https://www.gob-iocag.ulpgc.es/blog-image.

 

Texto por: Catarina V. Guerreiro e Patrícia Chaves

Fotografias: Catarina V. Guerreiro