Portugal lidera na literacia do Oceano, mas investigadores avisam que é importante passar à ação

Portugal tem estado na linha da frente das iniciativas europeias ligadas à Literacia do Oceano, mas o país nunca avaliou de forma consistente se essas ações mudam comportamentos. O alerta surge num capítulo publicado em maio deste ano no terceiro volume da obra "Ocean Literacy: The Foundation for the Success of the Ocean Decade", editado pela Springer Nature.

O capítulo, intitulado "Ocean Literacy in Portugal: Three Decades of Experience and Innovative Educational Initiatives Supporting the Ocean Decade", é da autoria de Zara Teixeira (MARE, Universidade de Évora), Raquel Costa (Instituto de Educação, Universidade de Lisboa), Patrícia Conceição (Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental), Cláudia Faria (Instituto de Educação, Universidade de Lisboa) e Laura Guimarães (CIIMAR, Universidade do Porto), e apresenta uma análise aprofundada ao estado da Literacia do Oceano na área da Educação em Portugal integrada numa obra global da Springer Nature, editada por Teresa J. Kennedy (Universidade do Texas), que reúne cerca de 250 autores de 42 países e regiões.

O estudo faz um raio X completo da Literacia do Oceano na área da educação, analisando 114 iniciativas desde 1990 até à data.  Portugal destaca-se como um dos países mais dinâmicos da Europa, com iniciativas como a Escola Azul, Educar para uma Geração Azul, CIIMAR na Escola e o MARE vai à Escola, que comprovam a vitalidade das ações de Literacia do Oceano a nível nacional.

Na sua maioria, as iniciativas foram promovidas por agências governamentais (38%) e universidades (32%), seguidas de organizações não governamentais (15%), setor económico (12%) e fundações privadas (3%). A análise, que combina dados quantitativos e qualitativos recolhidos através de questionários e entrevistas junto de estudantes, professores e comunidade educativa alargada, revela que a maioria das iniciativas explorou as dimensões de conhecimento, consciência e empatia. O ativismo é a dimensão menos representada, reforçando a necessidade de uma perspetiva de futuro que se mova do conhecimento para a ação. Estes programas integraram ainda perspetivas de sustentabilidade e ciência, com um foco mais reduzido nas dimensões da igualdade e da história, alertando para a importância de abordagens mais holísticas.

As investigadoras sublinham que a experiência acumulada em Portugal "oferece pistas úteis para debates internacionais sobre como transformar conhecimento em ação e integrar a Literacia do Oceano nos currículos, alinhando-se com recomendações das Nações Unidas".

O estudo identifica também as principais limitações à implementação destas atividades: a escassez de financiamento, a instabilidade nos recursos humanos e a dificuldade em manter a visibilidade e participação ao longo do tempo. O sucesso a longo prazo destas iniciativas dependerá de financiamento estável, da sua integração em estruturas já existentes como currículos ou planos estratégicos, e de parcerias comunitárias consolidadas.

Um dos diagnósticos mais preocupantes do capítulo é precisamente a ausência de avaliação sistemática do impacto destas iniciativas: estima-se que apenas 30% das 114 iniciativas identificadas tenham sido avaliadas quanto à mudança efetiva de comportamentos. “Portugal fez muito, mas só saberá se fez bem quando começar a medir, coordenar e transformar conhecimento em ação”, alerta Zara Teixeira, primeira autora do texto.

Living Labs: um olhar para o futuro

No segundo volume desta obra, surge um capítulo intitulado “Living Labs: A Catalyst for Ocean Literacy and Sustainable Innovation”, da autoria de Cátia Marques (MARE, Universidade de Coimbra), Ana Cunha (MARE) e Zara Teixeira, que analisa uma proposta de ação prática no contexto da literacia do oceano.

O capítulo utiliza o projeto Quinta Ciência Viva do Sal como caso de estudo, no contexto dos Living Labs. Estas estruturas são ecossistemas de inovação aberta que atuam como verdadeiros catalisadores de mudanças comportamentais, testando soluções sustentáveis em contexto real. Nestes “laboratórios”, as universidades, a indústria, o governo e a sociedade civil colaboram para cocriar produtos e serviços que respondam melhor às necessidades dos cidadãos, beneficiando a economia, a sociedade e o ambiente.

O projeto Quinta Ciência Viva do Sal decorreu entre 2020 e 2025, com o objetivo de determinar se as várias partes interessadas a nível local, regional e nacional estariam motivadas a aderir a um Living Lab com o propósito de inovar as salinas artesanais (de Aveiro a Castro Marim), prevenindo a degradação e promovendo a sua conservação e restauro.

Os 60 atores-chave de salinas artesanais que foram auscultados revelaram que, embora possuam conhecimento profundo dos ecossistemas, não têm acesso a ferramentas para transformar conhecimento em inovação sustentável. Os resultados demonstraram que estes atores estão motivados para estabelecer um Living Lab, no entanto, desconhecem o seu verdadeiro papel e potencial, muitas vezes confundindo-o com meros espaços de comunicação ou de resolução de problemas imediatos.

As investigadoras defendem que estes laboratórios podem atuar como grandes facilitadores da literacia do oceano no litoral português. Para elas, os Living Labs, “Ao unirem a ciência, as comunidades e as instituições políticas, tornam-se plataformas ideais para testar soluções sustentáveis em contexto real, mitigar conflitos estruturais e traduzir de vez a literacia em atitudes de conservação marinha e novas políticas públicas”.

A partir deste caso, o capítulo promove a discussão sobre a relevância internacional dos Living Labs, que, através da promoção de alterações de comportamento para a inovação ambiental sustentável, se inserem em iniciativas como a “Ocean Decade – The science we need for the ocean we want”.

 

 

Texto por: Patrícia Chaves