O Oceano como Domínio Estratégico em Ciência & Inovação

Se hoje tivéssemos de decidir quais os Domínios Estratégicos da AI², muitos de nós faríamos uma pergunta muito simples:

Que outro domínio reúne, ao mesmo tempo, soberania, segurança, clima, energia, biodiversidade, alimentação, recursos geológicos, dados, património cultural, inteligência artificial, telecomunicações, economia, diplomacia e inovação?

A resposta é apenas uma: o Oceano.

Portugal não é apenas um país com mar. É um país definido pelo mar. Gerimos uma Zona Económica Exclusiva de cerca de 1,7 milhões de km², com uma proposta de extensão da plataforma continental superior a 4 milhões de km². Cerca de 97% do nosso território é mar. Essa responsabilidade governativa não se exerce com discursos. Exerce-se com ciência, tecnologia e inovação.

Mas há uma segunda razão.

A AI² está a nascer para ligar investigação, inovação e impacto. O próprio Relatório de Focagem Estratégica afirma que os domínios estratégicos devem responder aos grandes desafios societais, integrar diferentes áreas científicas e transformar conhecimento em valor económico, social, cultural e ambiental.

Ora, não existe melhor exemplo dessa integração do que o Oceano.

O Oceano obriga-nos a juntar biologia, engenharia, inteligência artificial, robótica, ciência de dados, materiais, energia, economia, direito, saúde, políticas públicas e ciências sociais. É um verdadeiro laboratório de interdisciplinaridade e um acelerador de inovação.

E há uma terceira razão.

Portugal já possui uma massa crítica extraordinária, como ficou demonstrado na Declaração de Aveiro. Os cinco grandes centros dedicados às ciências do mar (MARE, CESAM, CIIMAR, CCMAR, OKEANOS) representam mais de 900 investigadores doutorados integrados, mais de 10 500 publicações em cinco anos, mais de 700 projetos e cerca de 206 milhões de euros de financiamento competitivo, participando nas principais infraestruturas científicas europeias.

O problema não é falta de excelência.

O problema é que essa excelência continua demasiado fragmentada, dependente de financiamento de curto prazo, com infraestruturas insuficientes, precariedade do emprego e uma interface ciência-política ainda demasiado frágil.

É precisamente aqui que a AI² pode fazer a diferença.

Ao reconhecer o Oceano como Domínio Estratégico, a AI² não estará a favorecer uma área científica. Estará a criar uma plataforma nacional para integrar conhecimento, promover missões orientadas para impacto, mobilizar investimento público e privado, desenvolver tecnologias digitais e de inteligência artificial, reforçar a economia azul sustentável e apoiar decisões políticas baseadas em evidência.

Num momento em que a Europa discute a Lei Europeia dos Oceanos no âmbito do Pacto Europeu para os Oceanos e investe em gémeos digitais do oceano, observação oceânica e inteligência artificial aplicada ao mar, Portugal tem uma oportunidade única para liderar e não apenas acompanhar.

Por isso, a questão já não é se o Oceano deve ser um Domínio Estratégico da AI².

A verdadeira questão é:

Como poderíamos construir uma estratégia nacional de investigação e inovação para Portugal sem colocar o Oceano no seu centro?

Porque investir no Oceano não é investir apenas numa área científica.

É investir na soberania, na competitividade, na segurança, na sustentabilidade e no futuro de Portugal.

Portugal pode voltar a ser uma potência marítima por via do conhecimento.

 

Autores

Pedro R. Almeida, Diretor do MARE — Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (Univ. Évora, FCUL, FCT-NOVA, Univ. Coimbra, Univ. Madeira, IPLeiria, IPSetúbal, ISPA, ARDITI)

Amadeu Soares, Diretor do CESAM — Centro de Estudos do Ambiente e do Mar, Universidade de Aveiro

Vitor Vasconcelos, Diretor do CIIMAR — Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental, Universidade do Porto

Adelino Canário, Diretor do CCMAR — Centro de Ciências do Mar, Universidade do Algarve

Gui Menezes, Diretor do OKEANOS — Instituto de Investigação em Ciências do Mar, Universidade dos Açores