Poderão as aves ajudar a monitorizar a saúde ecológica das ribeiras urbanas?

Um estudo publicado recentemente na revista científica Aquatic Sciences revela que a composição das comunidades de aves em ribeiras urbanas está fortemente associada à cobertura de vegetação ripícola, à qualidade do habitat e ao grau de alteração hidromorfológica dos cursos de água. Os investigadores MARE|ARNET da Universidade de Coimbra e da Universidade de Évora analisaram 15 ribeiras urbanas em Coimbra ao longo de um gradiente de urbanização.

Entre março e maio de 2022, a equipa efetuou censos de aves e amostragens de macroinvertebrados bentónicos nos mesmos 15 locais, complementados com dados sobre a qualidade físico-química da água, as condições hidromorfológicas e a estrutura e composição da vegetação ripícola. No total, foram contabilizados 265 indivíduos de 29 espécies de aves. Os melros-pretos, as toutinegras-de-barrete, os chamarizes e os pardais-comuns foram as espécies mais abundantes, enquanto o guarda-rios foi a única espécie piscívora registada.

A monitorização de rios e ribeiras recorre habitualmente a indicadores baseados em organismos aquáticos, como peixes, invertebrados e plantas, para avaliar e restaurar a qualidade ecológica dos sistemas de água doce. No entanto, estes índices avaliam apenas indiretamente a influência da vegetação ripícola. Aqui, os autores consideraram que organismos que habitam estas zonas ribeirinhas, como as aves, podem ser diretamente afetados pela degradação da vegetação nas margens dos rios.

Os resultados mostram que a riqueza de espécies insetívoras está positivamente associada à cobertura de árvores e arbustos e negativamente associada à degradação ribeirinha. Já a abundância de aves granívoras aumentou em zonas mais urbanizadas e em ecossistemas mais degradados. A ribeira com pior qualidade biológica e menor riqueza de aves caracterizava-se por um canal exposto, com pouca ou nenhuma vegetação ripícola e forte perturbação humana, enquanto aquela que apresentou melhor qualidade da água tinha uma copa densa que sombreava o canal, apesar de uma cobertura vegetal total apenas moderada.

Os padrões observados nas comunidades de aves corresponderam apenas parcialmente à classificação da qualidade biológica das ribeiras obtida a partir dos dados de macroinvertebrados. A estrutura e composição da vegetação ripícola, a par da qualidade hidromorfológica e da água, explicaram a composição de ambas as comunidades, mas mostraram-se mais determinantes para as aves do que para os macroinvertebrados.

Os autores concluem que as aves podem constituir um indicador ecológico complementar, e não um substituto, dos métodos de avaliação já baseados em macroinvertebrados, ao fornecerem informação sobre a integridade da vegetação ripícola que estes últimos não captam diretamente. Para que este potencial seja plenamente explorado, os investigadores defendem o desenvolvimento de índices padronizados baseados em aves, calibrados para diferentes tipos de ribeiras.

O estudo foi conduzido por investigadores do MARE|ARNET Jorge M. Santos, Maria João Feio, Ana R. Calapez, Sónia R. Q. Serra, Andreína Zerega, Zara Teixeira e Jaime A. Ramos, da Universidade de Coimbra, da Universidade de Évora e do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores da Universidade de Coimbra.

 

Texto por: Patrícia Chaves