O siluro foi às escolas e chegou a mais de 5500 alunos portugueses

O projeto LIFE-PREDATOR - PREvent, Detect and combAT the spread Of SiluRus glanis in south european lakes to protect biodiversity, cofinanciado pela União Europeia através do programa LIFE e desenvolvido em parceria entre Portugal, Itália e República Checa, nasceu para travar o avanço do siluro ou peixe-gato europeu, a maior espécie de peixe de água doce do continente, capaz de atingir 2,8 metros e 120 quilos.  

 

Nativo dos grandes rios da Europa Central, foi introduzido em Espanha na década de 70, chegando a Portugal entre 2006 e 2008 por dispersão natural e assistida ao longo do Rio Tejo. Hoje é considerado uma das espécies invasoras com maior impacto nas populações nativas da bacia do Tejo.  

Coordenado nacionalmente por Filipe Ribeiro, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e investigador do MARE | ARNET, a equipa portuguesa do projeto definiu, desde o início, que travar o siluro passava também pelas escolas, e foi assim que nasceu o programa educativo que já levou os peixes dos rios de Portugal a milhares de crianças. 

 

Um dia em Arruda dos Vinhos 

No Externato João Alberto Faria, em Arruda dos Vinhos, mais de trezentos alunos do 2.º ciclo passaram uma manhã a descobrir um mundo que, até ali, lhes era praticamente desconhecido: o dos peixes de água doce que vivem nos rios e ribeiras do país. A visita, conduzida pela equipa do Fish Invasions Lab do MARE, foi uma entre as seis dezenas que têm levado o LIFE-PREDATOR às escolas portuguesas. 

À chegada, alunos e professores já estavam à espera dos investigadores da Faculdade que vinham falar de peixes. As ações tiveram início no ginásio, onde as crianças procuravam os melhores lugares para assistir. Foram brindados com uma apresentação interativa sobre os peixes dos rios de Portugal: os nativos, os invasores, os migradores, e o siluro. Onde vive, quanto cresce, o que come, os impactos que tem nos peixes nativos e as soluções que existem para travar o seu avanço foram alguns dos temas abordados. 

A seguir, dois grupos foram formados. Um permaneceu no ginásio com jogos de cartas  - “As Invasoras à Espreita“ - e ‘puzzles’, e teve ainda a oportunidade de observar vértebras de siluro, perceber como o seu tamanho varia com o comprimento do peixe e como, a partir delas, se calcula a idade do animal. 

O outro grupo seguiu até ao Rio Grande da Pipa, que atravessa Arruda dos Vinhos, onde uma equipa de investigadores os esperava para lhes falar dos métodos de amostragem científica. Realizaram ali uma demonstração de pesca elétrica, que permitiu recolher algumas espécies posteriormente colocadas num aquário para observação ao vivo: uma enguia, uma boga-portuguesa, uma verdemã, um barbo, uma rã e até um exemplar invasor de lagostim-vermelho. 

No final, questionados sobre o que tinham achado, os alunos não esconderam o seu entusiasmo. "Foi muito fixe porque aprendemos várias coisas dos peixes", resumiu um deles. Outro contou que nunca tinha tocado num peixe antes e gostou. Uma das partes que mais surpreendeu foi a viagem das enguias, "ela faz um caminho muito, muito longo", explicou um aluno, sobre a migração destes animais entre o mar e os rios. Houve quem confessasse ter mudado de ideias sobre a pesca, "achava que pescar era sempre mau, mas temos que pescar, na verdade, para proteger", percebeu uma aluna, depois de saber que a pesca científica sustentável faz parte do trabalho dos investigadores. E quando se perguntou o que iam contar aos pais ao fim do dia, as respostas vieram em catadupa, que há 71 espécies de peixes de água doce em Portugal e trinta mil no mundo inteiro, que os peixes fazem viagens enormes para se reproduzirem, e que o siluro, esse, "não é nada bom para a vida humana", porque "come os peixes" e "diminui coisas que podemos comer também".  

 

Como se constrói uma sessão que prende a atenção 

 

As sessões seguem sempre uma estrutura semelhante, ajustada à idade de cada turma. "Temos a primeira parte, que é uma apresentação, que é muito interativa, e depois temos uma parte de atividade que é adaptada de forma diferenciada. No 8.º ano temos no final um Kahoot!. Com os mais pequeninos fazemos o jogo da memória, que todos conhecem. 'As Invasoras à espreita' já é mais para 3.º, 4.º, 5.º anos, que já sabem ler mais fluentemente, explica Mafalda Moncada, investigadora do grupo e responsável pelo programa educativo. 

Por trás desta divisão por idades está um trabalho de reinvenção constante. Mafalda Moncada conta que partiu de apresentações já existentes na equipa, mas sentiu que era preciso ir mais além. "A parte dos jogos é mais desafiante. O jogo da memória nunca falha. Os puzzles também nunca falham. E depois achei que giro ter um jogo de marca. Tive ali um bocadinho a batalhar", recorda, sobre a criação do jogo "’As Invasoras à espreita’, uma adaptação do clássico jogo de polícias e ladrões ao mundo dos rios, em que as espécies nativas procuram o seu par enquanto as invasoras tentam eliminá-las e um biólogo corre atrás destas últimas para as travar. "Até agora tem sido um sucesso", resume. 

A apresentação inicial também tem os seus próprios truques de memória. A cada aluno é entregue uma placa em cartão com uma espécie de peixe dos rios de Portugal, indicando se é nativa, invasora, migradora, o seu nível de endemismo ou o seu risco de extinção. "Tu és o ruivaco. Está aqui a bandeira de Portugal. Porquê? Porque em todo o mundo só existe em Portugal", explica Filipe Ribeiro, descrevendo como os alunos se agrupam visualmente por categorias ao longo da sessão. "Isto é muita informação, mas uma coisa que não esquecem é o peixe que têm na mão", afirma Mafalda. 

 

Uma meta perseguida escola a escola 

Esta visita foi uma entre muitas, e o seu alcance só se entende em contexto. Segundo Filipe Ribeiro, a candidatura do LIFE-PREDATOR previa um objetivo ambicioso, mas que parecia perfeitamente alcançável ao longo de cinco anos do projeto: cinco mil crianças e 50 escolas, com prioridade para os concelhos mais ribeirinhos do Tejo. "Estabelecemos, em toda a área de ação do projeto, prioridades territoriais. Os concelhos ribeirinhos do Tejo são onde há populações de siluro conhecidas e esses eram os principais municípios em que nós queríamos agir", explica. 

O arranque aconteceu em janeiro de 2025, quando Mafalda Moncada passou a dedicar-se a tempo inteiro a esta vertente do projeto. Um ano e meio depois, os números já superaram a meta inicial, 59 escolas visitadas e quase cinco mil e seiscentos alunos alcançados em junho de 2026. 

Esse crescimento exige um trabalho de bastidores que poucos veem. "Temos a vantagem de ter uma pessoa dedicada a tempo inteiro. Telefonar para as escolas, insistir, fazer marcações. Isto é tudo muito laborioso", admite Filipe Ribeiro, descrevendo o esforço de Mafalda Moncada para conseguir agendar ações junto de câmaras municipais e agrupamentos escolares, nem sempre disponíveis. 

No terreno, ela é quase sempre acompanhada por Diogo Ribeiro, "Nas ações a Mafalda é sempre assessorada por um de nós. Quase invariavelmente calha ao Diogo", refere Filipe. 

Foi no Gavião que aconteceu um dos momentos mais impactantes do projeto. Uma visita a uma escola que coincidiu com a da monitora, com o resto da equipa de parceiros checos e italianos do LIFE-PREDATOR. "Estivemos lá o dia inteiro. Foi uma coisa bastante grande. Quando os colegas chegaram, estávamos a começar a fazer um Kahoot!. Toda a equipa do LIFE acabou por fazê-lo também", recorda Filipe Ribeiro. "Apesar de tudo estar em português, os checos e os italianos participaram e ficaram impressionados. Chegarem e verem um evento de trezentos e tal alunos é qualquer coisa." 

 

O desconhecimento que surpreende e as pontes que se criam 

Não foram só os números que surpreenderam; foi o tamanho do desconhecimento que encontraram pelo caminho que mais surpreendeu a equipa. Mafalda recorda ter perguntado, numa escola, que espécies de peixes de água doce os alunos conheciam, e um deles respondeu, com toda a convicção: "douradinhos".

Filipe Ribeiro tem uma história parecida, de uma ação de formação com a GNR em que mostrou a imagem do peixe bacalhau e ninguém na sala o reconheceu, por estarem todos habituados apenas à forma triangular do peixe salgado já preparado para venda.  

Mas é a ligação geracional que mais surpreendeu Filipe: "Às vezes sinto que estamos a trazer memórias do passado para a nova geração", diz, recordando os peixes que os avós dos alunos de hoje apanhavam quando andavam descalços na ribeira, os bordalos, os barbos, as bogas, numa altura em que ainda se ia para a água sem medo de vidros ou da poluição. Essa ponte entre gerações é também, para a equipa, a prova de que a mensagem passa para além da sala de aula, com casos de crianças que levaram a conversa para casa e de familiares que, semanas depois, confirmaram à equipa que o assunto tinha sido discutido ao jantar. 

Questionada sobre os objetivos do programa, Mafalda Moncada não tem dúvidas. "Acho que tínhamos três objetivos principais: dar a conhecer os peixes de água doce, a problemática das invasoras e o siluro, porque é o alvo do nosso projeto." E sobre o que realmente permanece após a equipa sair da escola, resume: "O que eu acho que fica é, pelo menos, que os peixes de água doce existem e que há aqui uns que sempre existiram e outros que nem sempre. Há muita diversidade. Estas duas mensagens já são muito importantes."  

Há ainda um apelo à ação que a equipa repete em cada sessão, o de levar a conversa para casa. Quando confrontados com a pergunta sobre o que fazer ao siluro, e às toneladas de peixe que seria preciso retirar dos rios, a resposta dos alunos costuma ser, segundo Mafalda, tão natural quanto a que se ouviu em Arruda dos Vinhos, "pescar e comer". 

Quanto ao futuro, depois do fim do financiamento europeu que sustenta o LIFE-PREDATOR, Filipe Ribeiro não tem dúvidas de que vale a pena continuar a procurar forma de prosseguir com o projeto "Há um grande nível de satisfação pessoal da nossa parte. O resultado é imediato. O impacto é real. Acho que cria uma boa dinâmica na equipa.” 

 

Texto: Vera Sequeira 

Fotografias: Jéssica Jacinto e Vera Sequeira