Reunião colaborativa do projeto CaSuLO junta cientistas, autarcas e comunidade para discutir o futuro da Lagoa de Óbidos

A Biblioteca Municipal das Caldas da Rainha recebeu, no dia 23 de julho, cerca de três dezenas de atores locais para a terceira reunião colaborativa do projeto CaSuLO - Entre a Exploração e a Conservação de recursos: Caminhos para a Sustentabilidade na Lagoa de Óbidos. Autarcas, investigadores, mariscadores, pescadores, associações ambientais e técnicos de várias entidades sentaram-se à mesma mesa para discutir o que o futuro reserva à Lagoa de Óbidos, num encontro que percorreu quatro frentes: o assoreamento, as pradarias marinhas, a qualidade da água e a forma como a lagoa deve ser governada.

Questionado sobre as tendências de assoreamento na Lagoa de Óbidos e as soluções para o controlar, o geólogo Rui Taborda (Instituto Dom Luiz | FCUL) respondeu com outra pergunta: o que se quer, afinal, para este ecossistema? Fixar a lagoa como está hoje ou deixá-la evoluir naturalmente? A plateia não teve dúvidas, reafirmando que o essencial é manter a lagoa ligada ao mar, preservando os benefícios económicos e sociais que essa ligação garante. Vítor Marques, presidente da Câmara Municipal das Caldas da Rainha, foi direto ao apontar o maior desafio de quem gere o território no terreno: conciliar turismo, pesca e desporto com uma lagoa que tende naturalmente ao assoreamento.

Da discussão nasceu uma proposta concreta: o recurso a pequenas dragas de forma contínua, complementando as grandes obras de dragagem com financiamento cooperativo entre entidades locais e fundos comunitários. No entanto, Helena Alves, da Agência Portuguesa do Ambiente, lembrou que os fundos comunitários não costumam financiar manutenção regular, apenas intervenções pontuais, e sugeriu que a gestão da lagoa passasse a ser concebida como um verdadeiro "megaprojeto", liderado em conjunto pelos municípios de Óbidos e Caldas da Rainha, capaz de acomodar tanto pequenas como grandes intervenções.

Sobre o crescimento acelerado das pradarias marinhas que se tem observado, nos últimos anos, na lagoa, o biólogo Ricardo Melo (MARE | ARNET | FCUL) explicou que estes habitats reagem a alterações ambientais em poucos meses, muito mais depressa do que se poderia esperar. A explicação mais provável está ligada à abundância de nutrientes, ao tipo de sedimento e à hidrodinâmica, não a alterações na salinidade. O facto de a água rica em nutrientes ficar mais tempo retida na lagoa devido ao assoreamento favorecerá o crescimento das ervas marinhas.

Foi precisamente a propósito dos nutrientes que se introduziu na discussão o problema da qualidade da água e da contaminação dos bivalves. “Como pode a água ser considerada de boa qualidade se a apanha de bivalves continua interdita?”, questionou um mariscador presente na sala. O engenheiro químico Carlos Vale (CIIMAR) e os representantes da APA explicaram que a rede que classifica a água balnear como "Excelente" mede a coluna de água, não o sedimento, e é precisamente no sedimento que o problema se esconde.

A bactéria Escherichia coli e outros indicadores de contaminação fecal depositam-se no sedimento e podem sobreviver por dias ou semanas. Como os bivalves vivem enterrados, ficam expostos a essa contaminação mesmo quando a água que os rodeia está limpa. Por isso, a qualidade da água, a qualidade dos sedimentos e a contaminação microbiológica dos bivalves são três parâmetros distintos, avaliados por sistemas de monitorização diferentes, o que explica que a classificação "Excelente" e a interdição à apanha possam coexistir sem contradição.

A discussão fechou com o tema da governação. O geógrafo João Ferrão (Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa) colocou a pergunta fulcral: “De que serve um plano estratégico se nunca chegar a ser executado?”. Defendeu uma visão sistémica dos problemas, uma intervenção integrada e, sobretudo, a capacidade de antecipar oportunidades de financiamento, apontando para instrumentos disponíveis que devem ser aproveitados. Como exemplo de que é possível transformar diagnóstico em ação, foi indicado o processo de criação do Corredor do Rio Leça, a primeira associação intermunicipal constituída em Portugal com o propósito único de recuperar um rio, hoje responsável pelo primeiro Plano Específico de Gestão de Águas do país.

A 24 de setembro decorrerá a próxima reunião participativa do projeto, que dará início ao processo de definição de ações e de soluções concretas para o Plano Estratégico da Lagoa de Óbidos.

O projeto CaSuLO, que tem o objetivo de construir instrumentos de governança colaborativa para a Lagoa de Óbidos, é financiado pelo Município das Caldas da Rainha, com o apoio do Programa MAR 2030, e é executado em parceria com o Município de Óbidos, o MARE, através das suas unidades da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e da Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar do Instituto Politécnico de Leiria, a Associação PATO e a APMALO, Associação de Pescadores e Mariscadores da Lagoa de Óbidos.

 

Texto por: Vera Sequeira e Maria João Correia

Fotografias: Colagem - Sylvie Dias, Reunião - Teresa Mouga