Entre 27 e 29 de maio, a Universidade de Évora foi o ponto de encontro para quem trabalha na comunicação de ciência em Portugal. No SciComPt 2026, investigadores e comunicadores do MARE/ARNET juntaram-se a mais de 300 participantes para refletir sobre como comunicar “Ciência, um Património para o Futuro”.
Este ano, a conferência propunha sessões assentes em três pilares: memória, identidade e sustentabilidade. O Alentejo, como pano de fundo, proporcionou um ambiente fértil para a discussão entre investigadores, comunicadores e jornalistas, com foco nas responsabilidades sociais, na identidade e no território. E Évora, com quase 20 séculos de história, é Património da Humanidade desde 1986; serviu de mote para revisitarmos a história da comunicação de ciência, acolhermos a Cultura como parte integrante e promovermos práticas de comunicação que respondam aos desafios ambientais e sociais contemporâneos.
Oficinas pré-congresso
A 26 de maio, as oficinas arrancaram com o objetivo de capacitar os participantes para uma comunicação mais apelativa, inovadora e atual. As quatro formações – gamificação, cocriação de arquivos, envolvimento de stakeholders e stop-motion – desafiaram os participantes a experimentar novas linguagens e a repensar a forma como aproximam públicos da ciência. A estrutura teórico-prática permitiu a partilha de experiências entre profissionais de diferentes áreas científicas e regiões do país.
Plenárias para reflexão
Nas sessões plenárias, José Sotero, do iNOVA Media Lab e OBI, desafiou a audiência a refletir sobre o que queremos preservar na era da inteligência artificial, sublinhando o valor das pessoas por detrás da câmara ou do teclado. Juri Castelfranchi, professor de Sociologia na Universidade Federal de Minas Gerais (Brasil), propôs uma visão da comunicação de ciência como ecossistema, convidando-nos a pensar sobre o papel que queremos desempenhar e as motivações que nos movem. Reforçou ainda que o Direito à Ciência, integrado na Declaração Universal dos Direitos Humanos, implica participação, indo além da alfabetização com a integração de identidade, pertença e poder. Clara Florensa, investigadora na Institució Milà i Fontanals do Consejo Superior de Investigaciones Científicas (IMF-CSIC, Barcelona, Espanha), destacou como episódios históricos de contaminação nuclear revelam as tensões entre segredo e transparência e mostram o papel decisivo da comunicação de ciência na gestão de crises e na construção do debate público.
Contributos MARE/ARNET
O MARE/ARNET esteve representado em três apresentações. Zara Teixeira, investigadora MARE da Universidade de Évora, apresentou o ciclo de atividades "Salina Criativa" (2023–2024), desenvolvido no âmbito do projeto Quinta Ciência Viva do Sal que aproximou investigadores, agentes culturais e comunidade local das salinas tradicionais do estuário do Mondego através da ciência, arte e património. O objetivo foi convidar a comunidade de comunicadores de ciência a refletir sobre novas abordagens que ampliem públicos e reforcem o valor da ciência. Vera Sequeira, responsável pela comunicação do Laboratório Associado ARNET, partilhou as estratégias usadas para construir uma identidade comum entre os vários centros e unidades do laboratório, destacando a rubrica "Perfil do Investigador" como exemplo de valorização do sentido de pertença e de visibilidade do trabalho científico. Irene Bermudez, investigadora MARE da Universidade de Coimbra, apresentou o projeto europeu SPLASH EU, coordenado por Zara Teixeira e desenvolvido em 2025, que explorou estratégias para promover a cidadania ativa para a sustentabilidade marinha, com ações digitais e presenciais em Portugal e na Grécia, dirigidas a jovens, e que culminou num guia e numa plataforma online de partilha comunitária.
O ARNET contou ainda com uma apresentação do CIMA no âmbito do Projeto SYREN (que inclui o MARE da Universidade de Lisboa como parceiro), focada nos desafios das populações costeiras face às alterações climáticas, aos eventos extremos e às medidas de Redução do Risco de Catástrofes (RRC). A apresentação centrou-se no sétimo princípio da literacia costeira: a responsabilidade partilhada de cuidar das zonas costeiras para as gerações presentes e futuras.
Um congresso que reforça comunidade
Entre sessões científicas dedicadas à História, Memória e Património, Educação e Literacia Científica, Arte, Cultura e Criatividade, Sociedade e Espaço Público, Ciência Cidadã, Redes Sociais, entre outras, o SciComPt 2026 voltou a afirmar-se como espaço de referência para quem trabalha a comunicação de ciência em Portugal.
O congresso terminou com uma nota otimista: a comunidade continua a crescer e o SciComPt é reconhecido como o espaço de referência para partilhar sucessos, enfrentar desafios e contribuir para a construção de um património vivo de fabrico conjunto de ideias.
SciComPt 2027
O SciComPt 2027 irá realizar-se no Centro de Ciências do Mar (CCMAR) da Universidade do Algarve, em maio do próximo ano, com o tema “O Mar que nos une, a Ciência que nos guia”.
Texto por: Patrícia Chaves