Afonso Ferreira e Graça Sofia Nunes em entrevista à Sábado

Os investigadores do MARE Afonso Ferreira e Graça Sofia Nunes, embarcaram numa expedição científica a bordo do navio polar Almirante Maximiano, da Marinha do Brasil, para estudar os efeitos das alterações climáticas no fitoplâncton da região da Península Antártica. Durante quase um mês, os dois investigadores portugueses viveram a bordo do navio, rodeados de gelo e água, com 20 horas de luz por dia. 

Apesar das longas jornadas de trabalho que se estendem das 07h30 às 19h30, Graça Sofia Nunes revela que a rotina também inclui momentos de descontração, como ver filmes ou jogar cartas após o expediente. As refeições são "tipicamente brasileiras, arroz e feijão com proteína, o que não é nada mau, mas já dá para ter saudades da nossa culinária" confessa. 

O trabalho a bordo do Almirante Maximiano é organizado por turnos, garantindo que as tarefas de investigação não sejam interrompidas. Graça explica que, apesar do intenso ritmo, há tempo para conviver com a equipa na “Praça das Armas” ou até para usar o ginásio do navio, sempre que possível.

A jornada até à Antártida foi um desafio logístico. Para chegar ao navio, os investigadores precisaram de dois voos comerciais, dois autocarros e um voo militar da Força Aérea Brasileira até ao Chile.

O estudo dos dois investigadores, insere-se no projeto ImpactANT, uma parceria entre a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e a Universidade Federal do Rio Grande, no Brasil, que existe desde 2017. O projeto visa "estudar como é que o ecossistema antártico está a alterar-se face às alterações climáticas", tendo em conta "o estudo de vários grupos biológicos, incluindo fitoplâncton, baleias e cetáceos e aves marinhas".

Afonso Ferreira destacou também o "apoio financeiro do programa Polar Português, que todos os anos abre uma candidatura para pequenos projetos que decorram em regiões polares", e a colaboração com a NASA, que fornece imagens do satélite PACE, lançado em fevereiro de 2024. Através dessas imagens, será possível monitorizar as comunidades de fitoplâncton da região, um trabalho complexo que só pode ser realizado a partir do espaço.

Graça Sofia Nunes explica que a Antártida foi escolhida por ser “um local com uma alta concentração de fitoplâncton devido à combinação de uma elevada disponibilidade de nutrientes, aliada à disponibilidade de luz solar durante o verão austral". "Tendo em conta que a Antártida é uma das regiões mais afetadas pelas alterações climáticas, é essencial perceber como é que o fitoplâncton está a responder a esta ameaça e quais os potenciais impactos dessa resposta para o resto do ecossistema".

A importância do fitoplâncton não pode ser subestimada, como afirma Afonso Ferreira. “ O fitoplâncton tem um papel essencial nos ecossistemas marinhos do planeta", "essenciais por transformar dióxido de carbono em oxigénio através da fotossíntese, permitindo que nós e os restantes animais possamos respirar adequadamente". É ainda "um alimento essencial para muitos organismos emblemáticos, inclusive a 'nossa' sardinha", o que significa que "qualquer alteração drástica no fitoplâncton pode ter consequências graves para o equilíbrio do ecossistema".

Os investigadores portugueses retornaram a Portugal no passado dia 20 de fevereiro, após quase um mês a bordo, com a missão cumprida, mas com muitas novas descobertas sobre os efeitos das alterações climáticas no ecossistema antártico.

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