A redução das populações de lampreia em Portugal, e o aumento do seu custo no mercado, são já problemas bastante conhecidos. Os investigadores do MARE Pedro Raposo de Almeida e Catarina Martins, foram à Sociedade Civil explicar como prevenir, e garantir a recuperação desta espécie que está a desaparecer dos nossos rios.
Os investigadores do MARE têm monitorizado as populações de lampreias em Portugal nas últimas décadas. O declínio verificado, tem-se agravado desde 2014 devido a vários fatores, como a redução de habitat na Península Ibérica, a pesca excessiva e a elevada mortalidade destes animais no mar.
Por essa razão, o rio Mondego tem sido alvo de vários investimentos para recuperação de habitat e adoção de uma gestão mais sustentável. “Uma das coisas que foi feita (…) foi a construção de várias passagens para peixes, para aumentar a área disponível para esta espécie” refere Pedro Raposo de Almeida.
Segundo o diretor do MARE, estas construções apresentam apenas uma eficiência de 30%, pelo que foram acompanhadas de medidas de gestão de pesca, como o seu condicionamento. Este ano, foi também criando um projeto, para o aceleramento da recuperação das populações de lampreia no rio Mondego.
Este novo projeto inclui a translocação de animais para montante, onde estes se reproduzem. “Aquilo que está previsto é que pelo menos 400 a 500 (animais) por ano, sejam translocados”, explica Pedro Raposo de Almeida. “Simultaneamente, é feito um envolvimento de todas as entidades, que têm alguma responsabilidade no ordenamento do território e na gestão destes recursos, designadamente, da lampreia”.
Para além disto, o projeto pretende identificar os “santuários” desta espécie, ou seja, as áreas onde se verifica uma elevada concentração de larvas. Esta medida é extremamente importante, porque permite evitar que as intervenções que são feitas no leito do rio, afetem os animais. As lampreias passam os seus primeiros 5 anos de vida enterrados no sedimento, até sofrerem metamorfose, sendo por isso altamente vulneráveis a estas intervenções.
Por terem um ciclo de vida de cerca de 7 anos, Pedro Raposo de Almeida alerta que “todo o esforço que fizermos agora, só terá retorno daqui a oito ou nove anos”.
Catarina Mateus acrescenta que, para colmatar algumas lacunas que existem no conhecimento da fase marinha do ciclo de vida das lampreias, será criado um observatório transnacional para a gestão desta espécie.
“Existem desafios e ameaças que são comuns, e assim conseguimos um melhor resultado na gestão destas espécies”, explica. “Este observatório transnacional pretende reunir, não só cientistas, como também todos os agentes que têm um papel ativo na gestão destas espécies”.
Segundo a investigadora, o que se pretende é que se tenha informação de todos os países envolvidos na recuperação da lampreia, nomeadamente, as suas medidas, resultados, e o estado das populações.
Atendendo a importância que a lampreia tem para as comunidades, outra medida possível, seria a suspensão da pesca para assegurar a sobrevivência da espécie.
“Não é conveniente fechar completamente em todos os rios”, defende Pedro Raposo de Almeida. O que o diretor do MARE propõe é um sistema de rotação, “em que fecha num ano um determinado rio, ou que pelo menos fique bastante restrito nesse rio, e os outros ficam abertos”. Desta forma o comércio e as atividades culturais dependentes da lampreia seriam garantidas, não comprometendo a sobrevivência da espécie.
“Daqui para a frente, e nos próximos dez anos, temos de olhar para a gestão desta espécie de forma muito criteriosa, e reduzir substancialmente a pesca”, conclui. “É possível recuperar, é preciso ter paciência, e uma gestão firme na forma como exploramos este recurso”.
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