De Lisboa a Veneza a bordo de casa: Giulia Sent parte hoje numa expedição oceanográfica à vela

A investigadora do MARE transforma o seu veleiro num laboratório flutuante e parte hoje rumo à sua cidade natal, recolhendo amostras de plâncton para um projeto financiado pela NASA e pela Agência Espacial Europeia.

 

Há sonhos que se planeiam em terra firme. O de Giulia Sent sempre esteve no mar. Hoje, a investigadora do MARE | ARNET e doutoranda na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa parte de Lisboa a bordo do Sara, o seu veleiro de 1973 que é também a sua casa, numa viagem de dois meses até Veneza, a cidade onde cresceu em Itália. Mas desta vez, o regresso a casa é também uma expedição científica.

Nascida e criada em Murano, uma pequena ilha na lagoa de Veneza, Giulia chegou a Lisboa para um estágio Erasmus de seis meses. Oito anos depois, ainda cá está, a viver a bordo de um veleiro clássico ancorado na marina de Lisboa e a concluir um doutoramento em teledeteção para monitorização de ecossistemas aquáticos costeiros. A viagem que hoje começa não é apenas um regresso a casa: é o início do projeto Becoming R/V, uma missão pessoal e científica para transformar o Sara numa verdadeira embarcação de investigação.

O Sara é um Hallberg-Rassy Mistral de 1973 com uma história própria: quando Giulia nasceu, em 1993, o veleiro já navegava há vinte anos. Hoje é a sua casa, a sua oficina e o seu maior professor. Giulia admite que, quando o conheceu, pensou em rebatizá-lo de Chaos, um reflexo, diz ela, de como a sua vida se desenrola. Mas “a sua personalidade era demasiado forte e ele tem 20 anos mais do que eu”, afirma Giulia no seu blogue. “Quem sou eu para lhe mudar o nome?”.

O veleiro foi selecionado para integrar o programa PlanktoSpace, iniciativa financiada pela NASA e pela Agência Espacial Europeia que recruta embarcações civis para recolher amostras de plâncton no oceano. O objetivo é correlacionar a composição biológica das águas superficiais com a cor do oceano captada por satélite, abrindo caminho para um sistema global de monitorização da biodiversidade em que o cidadão é o investigador principal. O Sara é uma das vinte embarcações selecionadas mundialmente para esta missão, e a inclusão de Giulia não foi por acaso, tendo em conta a sua área de investigação no MARE em teledeteção oceânica.

Ao longo da viagem, Giulia utilizará um Plankto-Kit a bordo, um laboratório em miniatura com rede de plâncton, uma unidade de filtração para recolha de material para posterior análise genética em laboratório e um microscópio para observar e fotografar, a bordo e em tempo real, as amostras de plâncton recolhidas. O protocolo dura cerca de três horas por sessão, mas que faz todo o sentido para uma investigadora que dedica o seu trabalho à monitorização de ecossistemas aquáticos por satélite.

A rota não será decidida apenas pelo vento. Planeia guiar-se por imagens de satélite que mostram a distribuição de plâncton ao longo do percurso, navegando em busca das amostras. “Quando digo que vou atrás do plâncton, digo literalmente”, refere Giulia no seu blogue. A dimensão do projeto não passou despercebida e foi reconhecida como atividade oficial da Década do Oceano das Nações Unidas, o programa global que reúne esforços científicos para travar a degradação dos oceanos até 2030.

A viagem será feita principalmente junto à costa, maioritariamente sozinha, com amigos e família a juntarem-se pontualmente a bordo ao longo do percurso. Haverá paragens em vários portos, sobretudo italianos, onde Giulia realizará sessões de divulgação científica sobre literacia do oceano e a importância da monitorização dos ecossistemas marinhos.

Mas, antes de chegar ao Mediterrâneo, há um obstáculo imprevisível a ultrapassar: “Se as orcas decidirem que o meu leme não vale a pena”, escreve Giulia no seu blogue, “devo estar no Mediterrâneo em menos de uma semana após a partida”, uma referência bem-humorada ao comportamento cada vez mais frequente de grupos de orcas que tem interagido com embarcações ao largo da costa portuguesa e no Estreito de Gibraltar.

A investigação é feita em regime voluntário. Para equipar o Sara com os instrumentos necessários e garantir que uma embarcação de meio século está à altura da missão, Giulia lançou uma campanha de crowdfunding no GoFundMe, onde qualquer pessoa pode contribuir para este laboratório flutuante de baixo impacto. A página do projeto, Becoming R/V, contará com atualizações regulares sobre a viagem, incluindo um rastreador em tempo real.

No MARE, temos o privilégio de contar com Giulia na nossa equipa. A sua capacidade de transformar um sonho pessoal num contributo genuíno para a ciência do oceano representa bem o espírito que nos move.

Boa viagem, Giulia, e que o Sara vos leve a bom porto!

 

Fotos: Giulia Sent

Texto por: Vera Sequeira