Os investigadores do MARE Beatriz Pereira, Lígia Cascalheira, Rui Rosa e José Ricardo Paula, são autores do artigo “Alteration of cleaner wrasse cognition and brain morphology under marine heatwaves”, onde avaliam o impacto das onda de calor no desempenho cognitivo dos bodiões limpadores.
As ondas de calor, intensificadas pelo aumento das temperaturas globais, têm afetado profundamente os ecossistemas marinhos. Entre os mais afetados, destacam-se os recifes de coral, essenciais à biodiversidade marinha e às suas interações. Um exemplo destas interações complexas é a relação estabelecida entre Bodiões limpadores (Labroides dimidiatus) com os seus clientes.
Estes pequenos peixes desempenham um papel essencial, ao remover ectoparasitas de peixes clientes, mantendo assim a saúde e diversidade das populações marinhas. No entanto, o aquecimento das águas tem mostrado impactos negativos significativos, no seu comportamento e fisiologia.
Para tentar compreender e quantificar estes impactos, uma equipa de investigadores do MARE, simulou uma onda de calor marinha em laboratório. O objetivo foi avaliar o desempenho cognitivo dos bodiões limpadores em condições ambientais extremas. Os peixes foram então expostos a uma onda de calor durante 55 dias, e o seu desempenho cognitivo avaliado através de uma tarefa de discriminação visual, durante esse período e após 14 dias de recuperação. A morfologia cerebral dos bodiões foi também analisada 30 dias depois do período de recuperação.
Este estudo mostrou que, embora os bodiões limpadores apresentassem uma recuperação no seu desempenho cognitivo, mantinham temporariamente alguns défices. O mais alarmante, no entanto, foram as alterações morfológicas no cérebro dos peixes. Embora o tamanho total do cérebro dos peixes expostos fosse significativamente maior, o telencéfalo (a região associada a funções cognitivas superiores e comportamentos sociais) estava notavelmente reduzido, enquanto o tronco cerebral apresentava um aumento considerável. Esse desequilíbrio na estrutura cerebral sugere que, embora os efeitos cognitivos possam ser reversíveis a curto prazo, as mudanças nas regiões cerebrais associadas a funções cognitivas superiores (como as interações sociais) podem ter impactos duradouros.
Isto significa que as mudanças estruturais causadas pelas ondas de calor, podem interferir com as interações ecológicas e com o papel vital dos peixes-limpadores nos recifes de coral.
Esse estudo destaca a importância de estratégias de conservação que vão além da proteção física dos recifes e das populações de peixes. A preservação da função ecológica dos peixes-limpadores, que são fundamentais para a saúde dos recifes de coral, depende também de ações que minimizem os impactos do aquecimento global e das ondas de calor marinhas, garantindo a recuperação não só das populações, mas também das capacidades cognitivas e sociais dessas espécies.