Lampreia em Perigo: Escassez em 2025 Ameaça Ecossistemas e Economia Local

A escassez de lampreia na época de 2025 está a fazer-se sentir, não só pela comunidade científica, mas também pelos comerciantes e pescadores. Em entrevista ao Jornal Público, o diretor do MARE Pedro Raposo de Almeida avisou que “Se o recurso continuar como está, e se não interrompermos a pesca da lampreia, um dia destes não há”. 

Apesar dos diversos avisos do investigador, a interrupção da pesca deste animais ainda não foi praticada. Por esse motivo, o declínio das populações de lampreia é cada vez mais acentuado.

“Já fui a todo lado, a todas as reuniões, estou sempre a repetir-me”, começa por explica Pedro Raposo de Almeida. “Se nós fôssemos coerentes com o que se está a passar, devíamos fechar a pesca. Não digo amanhã, mas logo que possível, ainda em Março, e não em Abril. Isto vale para o Mondego como o Vouga ou para o Lima. Mas as pessoas estão relutantes em fazê-lo. Porque se na parte marítima a questão dos dias não vai afectar, já na água doce, e sobretudo nos rios que têm pesqueiras, em que a pesca, como é mais a montante, está previsto durar até ao princípio de Maio, ia ser um problema para os pescadores”.

Para além das preocupações ambientais, o declínio das populações de lampreia tem também bastantes implicações a nível económico e social. “A preocupação, nesta fase, é também com toda a actividade económica que envolve a exploração da lampreia. Antes de acabar a lampreia acabam os pescadores e acabaram os festivais” refere o investigador.

Apesar dos pescadores relatarem uma melhoria na quantidade de lampreias pescadas, “continuamos com valores completamente inferiores ao que seria de esperar”.

O director do MARE espera ainda por esses dados positivos, que podem chegar no final de Abril, por exemplo. Ainda assim, seria um pequeno bálsamo para atenuar o problema. Pedro Raposo acredita que, por esta altura, “o poder político e económico já percebeu, há muito, a dimensão do problema”. “Mas entre o perceber e o actuar, leva tempo. Às vezes quem gere o recurso tem tendência a deixar que a natureza cumpra o seu destino”, conclui, sabendo que “a medida é razoavelmente impopular”. Porque imaginando que a pesca fechava mesmo, “qualquer pescador tinha que estar preparado para só ver retorno deste sacrifício daqui por oito anos”, o tempo que demora a renovar uma população de lampreia: cinco anos em água doce, como larva, mais dois no mar, antes de regressar aos rios.

Pedro Raposo de Almeida lembra que estamos perante “uma sequência de anos muito maus”, que se faz sentir também em Espanha e França. Mas na semana passada chegou a Portugal um carregamento. “Os pescadores, sobretudo no norte, começaram logo a levantar questões, porque o preço tinha caído”.

O director do MARE acredita que a maioria da lampreia que se consome agora em Portugal pode vir precisamente da região de Bordéus. “São eles que vão abastecendo aqui o nosso mercado. Se não fosse assim, o preço não estava a 100 euros o kg, estava muito mais caro”.

Apesar disso, “Ainda não perdemos a esperança de vislumbrar, enquanto cientistas, aquilo que nós achávamos que ia ser este ano: um ano de recuperação. Olhando para a dinâmica populacional dos últimos anos, seria o resultado de um bom recrutamento do que tivemos há sete ou oito anos”, conclui.